A Esperança da Caixa de Pandora

Apesar de todo o caos ela existe!

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Contos de Zakhara – Parte V – Capítulo final

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safira

Cheguei ao local ainda atordoada com as últimas revelações. Ele já estava a minha espera com as duas servas. Uma tenda já estava montada. Ele disse: “Vá com elas. De acordo com o que elas me disserem, conversaremos”. Entrei na tenda e ali estava selado o meu destino. Pude perceber que do lado de fora, ele andava de um lado para o outro apreensivo. Depois de alguns minutos, uma das servas sai e vai ter com Rashad. Ele imediatamente perguntou: “E então”?

 A serva respondeu: “Meu senhor, esta menina é tão pura quanto à honra de sua casa. Sua virtude permanece intacta tal como o dia de seu nascimento. Ela diz a verdade”.

Nesse momento, de forma irracional e abrupta Rashad entra na tenda e pede para a outra serva sair. Ele começa a falar: “Safira, eu não entendo. O que eu vi… como pode ser”?! E nessa hora comecei a contar para ele por tudo que passei desde que minha mãe morreu, a situação que armaram para mim fazendo uso de feitiço, inclusive a conversa que presenciei de Naila com o homem que se dizia meu amante.

Comovido pela minha história e enxergando que eu falava a verdade, Rashad disse: “Safira, meu amor, perdoe-me por ter duvidado de você. Procure entender que as circunstâncias não ajudaram muito, mas não me eximo de minha culpa. Deveria ter lhe dado à oportunidade de se defender. Investigar este homem e seus princípios. Perdoe-me meu amor por minha falta de confiança”.

Nunca as palavras soaram tão doce aos meus ouvidos. Finalmente, um dos homens que eu amava acreditara em mim. E Rashad completou:

“Safira, vamos agora a sua casa e explicar tudo isso ao seu pai. Contaremos toda a verdade e desmascaremos Naila. Acabaremos com este casamento sem propósito com Amina e então, ficaremos juntos para sempre como marido e mulher. Você é a mulher que eu amo e Amina não tem um terço de sua honestidade, pois ajudou a mãe nessa armação toda”.

Respondi: “Não Rashad, minha palavra agora não vale nada. Meu pai está cego por causa dos feitiços de Naila. Ir até lá e confrontá-lo seria pior. Também não recrimine Amina, ela é uma menina tola que não tem culpa de ter tido a criação que teve, cercada por mentiras e ilusões.

Cuide muito bem dela. Ela precisa muito de você para se livrar das teias negras da mãe. Amina é muito mimada e imatura, mas gosta de você, mesmo que de uma forma doentia e egoísta. Um dia voltarei e trarei provas contundentes sobre o caráter e as intenções de Naila. Tenho certeza que a sagrada Hakyiah me concederá esta graça e a verdade se mostrará tão luminosa quanto o sol que paira sobre este deserto”.

Com os olhos cheios d’água, Rashad segurou minhas mãos e ficou me contemplando em silêncio. Então finalmente disse: “Aqui, minha amada Safira, faço um voto. Meu coração não será de mais nenhuma mulher de Zakhara. Ele só pertence a ti. Ele aguardará sua volta com a verdade para alegria de nossas casas e aí, poderei realizar o meu sonho de ser feliz ao lado da mulher que eu amo”.

Emocionada respondi: “Aqui, meu amado Rashad, também faço um voto. Não serei de nenhum outro homem de Zakhara. Minha virtude permanecerá intacta até que eu possa voltar para ti e ser feliz ao lado do homem que eu amo”.

E assim parti de minha casa, levando no coração a esperança de que um dia voltarei para desfazer essas teias de mentiras. Agora sigo para onde o vento da Sagrada Hakyiah me leva, buscando levar uma palavra de conforto, um conselho amigo e acima de tudo, a certeza de que a verdade é o caminho para a iluminação.

Este é o capítulo final da queda de minha casa e de minha família.

 

*Publicado em 17/04/2008

Written by Babi Arruda

26/10/2009 at 16:15

Publicado em Série Contos de Zakhara

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Contos de Zakhara – Parte IV

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safira

Tiraram minha liberdade. Fui enganada e enganaram aqueles que amo. Fui tratada como uma escrava e como uma mulher sem virtude. Questionaram minha honra e jogaram meu nome na lama da maledicência.

 Acabaram com o meu noivado e para recompensar o mal que eu supostamente fiz, Naila ofereceu Amina como substituta à esposa com garantia de que esta filha tinha virtude para honrar a família de Rashad.

Fiquei sete dias e sete noites confinada numa tenda, com guardas a me vigiar, quando finalmente meu pai veio falar comigo:

 “Safira, serei muito breve e você me escutará calada e obedecerá minha decisão. Você desonrou esta casa e o nome desta família. Graças a Kor sua mãe está morta para ver esta vergonha. Já perdi um filho e não quero ser o culpado de acabar com o outro fruto de meu amor com sua mãe. Por isso, não irei sujar minhas mãos com o sangue de uma mulher sem virtude. Tu irás embora desta casa e seguirá o seu caminho.

 O que aconteceu aqui será esquecido e não será comentado. Este segredo morrerá comigo. Naila e Amina estão proibidas de comentar. Os servos que sabem de alguma coisa, mandei cortar suas línguas para que nunca falem sobre isso. Nadim e Rashad deram sua palavra de honra de que também esqueceriam este assunto.

Por isso, você irá embora daqui hoje à noite. Um camelo com suas coisas e provisões vai estar a sua espera. Nunca mais volte a esta casa, pois ela já não é mais sua e eu não tenho mais uma filha chamada Safira”.

 Ele se levantou e virou as costas, eu disse:

 “Pai, por favor, me conceda a oportunidade de lhe falar pela última vez”. Ainda de costas ele disse: “Fale, mas não me chame mais de pai”. Então repliquei: “Não guardo ódio ou rancor do senhor pela injustiça que está cometendo comigo. Amo-lhe muito para isso e sei que não tens culpa da armadilha que armaram para me separar desta casa. Um dia, os ventos irão retirar a névoa que encobrem os seus olhos e aí então, o senhor enxergará a verdade e sentirá que algumas vezes, ela pode ser mais amarga que o próprio fel”.

 E ele foi embora e eu fiquei ali chorando o meu próprio infortúnio. Jurei que um dia iria desmascarar a serpente travestida de mulher e restaurar minha honra perante meu pai e a família de Rashad.

 Logo após a saída de meu pai, consegui que uma serva de minha confiança – Wafa’ – fosse até a tenda me ver. Pedi a ela que fosse entregar um bilhete para Rashad e que ninguém poderia saber disso. Ela concordou de pronto. Wafa’ gostava muito de mim, pois foi ela quem me amparou quando minha mãe morreu, considerando-me como uma filha.

 No bilhete pedi para Rashad se encontrar comigo a noite, num ponto já afastado de minha tribo. Pedi também para que ele levasse duas servas de sua confiança para que minha virtude fosse testada. Passei a tarde inteira ansiosa por sua resposta. Afinal, não sabia como ele iria reagir.

 Quando Wafa’ voltou dizendo que ele concordara de ansiedade passei para a expectativa e tristeza, pois sabia que esta seria a última vez no qual veria e falaria com o meu amado.

 Como meu pai havia dito, um camelo com alguma de minhas coisas mais as provisões estavam a minha espera. Meu coração parecia estar na boca do estômago.

 Mas quando estava partindo para ir de encontro a Rashad, vejo duas formas na sombra iniciando uma palestra. Quando me aproximo vejo Naila conversando com… Sim! É ele! Nunca esqueceria o seu sorriso de escárnio. O homem que fingiu ser meu amante. Agora percebo um símbolo em sua roupa. Tem a marca dos Ghost Warriors. E escuto Naila falar:

 “Muito bem homem. Aqui está seu pagamento. Você e sua tribo têm me servido muito bem. Eliminaram minha rival e seus dois filhos bastardos. O serviço foi melhor do que eu esperava. Continuem assim e vocês serão muito bem recompensados”.

 Então, parece que sentindo minha presença, ambos olharam para trás. Escondi-me nas sombras e cuidadosamente fui embora. Senti o meu corpo inteiro ficar gelado. Aquela mulher era a única culpada da queda de minha casa e minha família.

 Este é o fim da quarta parte da queda de minha casa e de minha família.

 

*Publicado em 11/04/2009

Written by Babi Arruda

26/10/2009 at 16:10

Publicado em Série Contos de Zakhara

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Contos de Zakhara – Parte III

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Safira

“Sagrada Hakyiah, que os seus ventos sublimes se transformem numa tempestade pelo deserto, remexendo a areia, revelando todos os segredos que um dia alguém com medo da realidade, escondeu para se alimentar de suas próprias ilusões. Que seja mostrada a direção para a verdade, acabando de vez com a angústia desta tua serva, que nesta teia do destino foi amarrada com as mentiras de pessoas impuras. Oh doce Hakyiah, mostre que o subterfúgio da mentira nada pode contra a força da verdade, que deve guiar os nossos passos para a iluminação”.

(Safira Alima Souad)

Eu acreditava que nada mais poderia atingir a honra e a dignidade de minha família. Mas eu estava enganada. Subestimei os desejos de glória e poder de Naila, sem contar a paixão obsessiva de Amina por Rashad.

Um dia ao final da tarde, quando estava terminando de fazer minhas orações, Naila veio ao meu encontro desesperada. Pedi para que se acalmasse e me contasse o que estava acontecendo. Foi então que ela disse que Amina caíra acamada e que nenhuma erva ou sacerdote conseguira descobrir o que ela tinha muito menos curá-la.

Foi então que ela me pediu para ir até a tribo de Rashad procurar por uma sacerdotisa, que segundo ela, era muito poderosa e a única solução para o problema de sua filha. Compadeci com suas palavras e com seu desespero, afinal estava ali diante de mim uma mãe desesperada com a enfermidade da filha.

Logo me aprontei e segui viagem até a tribo de Rashad. Aqui começa a terceira queda de minha casa e de minha família.

Com pouco tempo de viagem, encontrei pelo caminho um homem que gritava por ajuda. Ele estava próximo a uma tenda montada no meio do deserto. Comovida pelo seu apelo, fui de encontro a ele para tentar auxiliá-lo.

Quando me aproximei ele disse que estava com o filho dentro da tenda, que havia sido mordido por uma serpente. Eu disse para ele se acalmar, que eu iria ajudá-lo. Quando entrei na tenda, percebi que ali não havia ninguém e que a tenda estava muito bem arrumada, com almofadas, comida e perfumada por incensos.

Ao olhar para trás, vi o homem com um sorriso de escárnio. E ele disse para mim: “Tola…não sabes que é você quem foi mordida por uma serpente?!”. Neste momento, ele disse mais algumas palavras e me senti como se estivesse hipnotizada.

Ele pediu para que eu me deitasse nas almofadas e começou a tirar o meu véu e minha aba. E falou mais uma vez: “Hum, acho que não precisamos fingir uma noite de amor pequena…afinal você é bonita demais para ficar tudo numa encenação”.

Ele começou a tirar a roupa dele vagarosamente com aquele sorriso malicioso nos lábios. Pegou uma taça de vinho e ascendeu um narguile. Então começou a tirar minha roupa, mas teve dificuldade porque comecei a espirrar continuamente.

Nesse momento, escuto uma voz familiar gritando: “Veja você com seus próprios olhos Karim. E verás que eu digo a verdade. Sua filha é uma perdida. Ela desonra toda a tua descendência e o nome de tua casa. E tu Rashad, não conheces a mulher que te prometeram como virtuosa. É melhor que saibas agora Sheik Nadim, pois não quero ser a portadora de desgraçada para tua família!”… Era a voz de Naila.

Olho para a entrada da tenda e vejo Naila, Amina, meu pai, o Sheik Nadim e Rashad me olhando aterrorizados. Quando me livro finalmente do feitiço que me tolhia os sentidos, já era tarde de mais. Ajoelhada, pedindo que me escutassem, que aquilo não era o que parecia e que estava muito longe de ser a verdade, meu pai me pegou pelos cabelos e foi me arrastando para fora da tenda até a nossa casa.

O que ele me disse prefiro não transcrever porque pretendo esquecer cada palavra que cortaram meu coração e minha alma muito mais do que uma scimitarra.

Este é o fim da terceira parte da queda de minha casa e de minha família.


*Publicado em 05/04/2008

Written by Babi Arruda

22/10/2009 at 01:13

Publicado em Série Contos de Zakhara

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Contos de Zakhara – Parte II

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Safira

Os anos se passaram e aconselhado por todos meu pai decidiu desposar outra mulher chamada Naila. Aqui começa a história da segunda queda.

No começo considerei boa a presença de Naila em minha casa, pois trouxe um pouco da alegria de meu pai de volta. Porém, como a verdade não pode ser escondida durante muito tempo, ela se revelou uma das pessoas das desonradas que conheci.

Apesar de tudo, não sinto ódio ou rancor, apenas pena porque infelizmente ela só conhece as verdades nebulosas de suas próprias ilusões de poder e ambição.

Vivendo as sombras do amor que meu pai sentia pela minha mãe e também pelo carinho que dedicava a mim, Naila consumida pelo ciúme, pela inveja e pela sede de poder, começou a mostrar o propósito de sua presença ali.

Como meu pai nunca desistiu de encontrar meu irmão, ele viajava muito com seus homens numa busca inútil e desatinada. E aproveitando de sua ausência, Naila começou a descontar em mim toda a sua frustração por nunca ter de verdade o coração de meu pai.

Perdi completamente minha liberdade. Quando meu pai estava fora, eu era tratada como sua escrava particular, permanecendo boa parte do tempo amarrada e acorrentada na tenda servindo aos seus mais pérfidos caprichos. Todos os horrores e crueldades de torturas físicas e psicológicas eu sofri nas mãos desta mulher impura. E os castigos só pioravam, principalmente, depois que meu pai começou a construir um harém e o nascimento de minha irmã Amina Maysa’.

Nunca tive a oportunidade de ser amiga de minha irmã. Ela me tratava com desprezo e desdém. Amina me considerava uma ameaça aos seus sonhos de princesa. Ela me achava submissa, confundindo submissão com conciliação e paz de espírito, afinal, sempre tive a certeza que a areia do deserto pode esconder um tesouro durante longos anos, mas um dia, os ventos irão desvendar a localização do esconderijo e aí então, a luz do ouro brilhará mais forte aos olhos daqueles que fogem da verdade.

Minha única alegria era quando meu pai regressava ao lar e quando me era permitido conversar com o meu noivo, meu amado Rashad Sabih Sharif, filho de um Sheik de uma outra tribo menor.

Devido ao apoio dado nos momentos difíceis de nossa casa, o pai de Rashad – Sheik Nadim Nasih Sharif – se tornou um grande amigo de meu pai, nascendo um elo muito forte entre as duas tribos. E para selar essa lealdade entre as duas casas, eu fui prometida a Rashad.

E isso foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida, pois ele era um homem bom, íntegro, honrado além de muito bonito. E o nosso amor cresceu como um oásis no meio do deserto – de forma límpida e cheio de esperanças.

Mas Naila tinha outras pretensões em sua cabeça. Ela achava que Amina deveria se casar com Rashad e se tornar a princesa das duas tribos.

Este é o fim da segunda parte da queda de minha casa e de minha família.


*Publicado em 27/03/2008

Written by Babi Arruda

22/10/2009 at 00:58

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Contos de Zakhara – Parte I

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Safira

Essa é uma história de reinos, poder e ambição, príncipes e princesas, mas não é uma história de aventura. Também não é uma história com um final feliz, mas sim com a triste realidade sobre o que a manipulação da verdade, vestida com o véu das mais doces das mentiras pode causar a vida de uma nobre família…


Quando eu nasci, minha mãe – Samia Ayisha Souad – achou que eu era o bem mais precioso que existia em toda Zakhara, por isso me deu o nome de Safira Alima. Meu pai – Karim Human Souad – de tão generoso que era, mandou preparar uma festa de sete dias e sete noites para comemorar meu nascimento.

Afinal, uma atitude totalmente esperada para um Sheik – mesmo que de uma tribo menor – que acabara de ser agraciado com a benção de sua primeira filha.

Um das coisas que mais me lembro deles era o amor que um sentia pelo outro. Esse sentimento era tão forte que meu pai nunca cogitou a construção de um harém. Ele dizia que o amor verdadeiro de minha mãe era o suficiente para encher a casa e o coração dele de felicidade por mil anos.

E dessa árvore virtuosa contemplada pelo amor, nasceu mais um fruto. Meu irmão Abdul-Hakim. Mais sete dias e sete noites de festejos. Karim Human Souad era o homem mais feliz de toda Zakhara.

Mas o destino lhe preparou uma armadilha. Quando meu irmão ainda era uma criança, nossa tribo foi atacada por um bando de Ghost Warriors. Expulsamos os invasores de nossa casa, mas com eles também foi meu irmão… raptado. Essa foi a última vez que vimos Abdul-Hakim.

Desesperado, meu pai montou vários grupos com os melhores guerreiros e magos de Zakhara para procurar meu irmão. Durante anos essa busca continuou, mas todos os esforços foram em vão.

Até que um dia, cansada de esperar e tomada pela angústia, minha mãe resolveu procurar pelo meu irmão sozinha.

Como ela era uma dune elf, conhecia muito bem os caminhos do deserto. Porém, o seu destino não era encontrar o meu irmão, mas sim morrer nas mãos de um bando de orcs. Mesmo com todas as habilidades que possuía, não foi possível sobreviver a um ataque daqueles.

Quando meu pai descobriu que minha mãe tinha partido, já era tarde demais. Ele a encontrou morta no deserto. E lamentou mais uma vez as teias do destino.

Por mais uma vez, nunca vi uma casa tão triste em toda vida. A alegria de minha casa e de meu pai morreu junto com minha mãe. Os anos se passavam e meu pai não conseguia esquecê-la e não se conformava com o rapto de meu irmão.

Até hoje, Sheik Karim Human Souad não esqueceu Samia Ayisha Souad, muito menos o triste sumiço de Abdul-Hakim Souad.

Este é o fim da primeira parte da queda de minha casa e de minha família…

*Publicado em 21/03/2008

Written by Babi Arruda

22/10/2009 at 00:46

Publicado em Série Contos de Zakhara

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