A Esperança da Caixa de Pandora

Apesar de todo o caos ela existe!

Egolatria de nós

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O que desgasta é aquilo que vive nas sombras do consciente. O que corrói pela usura do apego e do descaso, da indiferença seletiva, dos gestos calculados de abandono. Um olhar para frente com a certeza de “não te quero mais”. Chegou ao fim e o gosto era amargo, a derrota evidente, as ilusões desfeitas. E mesmo assim, o apreço pelo apego era imenso.

Por mais que entendesse racionalmente o que significava o silêncio, ainda se prendia num resto de ilusão como se estivesse para acordar de um pesadelo. E continuava esperando por um alento, um acalanto, mas no entanto só encontrou o grito do silêncio. Uma egolatria de nós.

E no silêncio perde-se o encanto. No canto do quarto tentava dizer algo. É preciso manter para se ter. Para se ter é preciso manter, mas isso não foi escutado. Ou foi deliberadamente ignorado como um verso simples, sem efeito colateral, sem defeito unilateral. Ficou ali jogado perto da estante sem estar devidamente guardado e tão pouco disponível na escrivaninha da sala de estar.

Um cansaço de ser. Um enorme cansaço de existir em múltiplas facetas. Aquele lixo existencial que fica imantado na alma como marca de nascença. Dissociações de eus, interpretações de personas, máscaras de ego e ligamentos subversivos com o ânimus. Uma retórica ou apenas distorções do consciente? Alucinações lúcidas e concretas. O pluralismo vicioso e nocivo.

Sentia que não podia mais sentir. Sentia que não podia mais esperar. Pediu mais uma dose de um whisky barato e olhou de novo para a porta de entrada. Nenhum sinal, nenhuma vida. Vazio. Ela continuava fechada para todas as possibilidades que um dia sonhara, que um dia mesmo que ilusoriamente teve em suas mãos, na sua boca, no seu corpo.

Voltou seus pensamentos para a realidade. Julgou que talvez fosse melhor assim, essa distância forçada, esse adeus sem volta. As vontades eram antagônicas: ela queria um enredo. Ele queria uma canção. Ela queria desatino. Mas ele só podia oferecer solidão.

Mais nada a esperar. Mais nada havia para oferecer. E assim de um sonho, de uma espera, o tempo partiu o encanto. Poderia escolher entre a vida ou uma utopia. Preferiu a mesmice. Preferiu o mais cômodo, preferiu os alicerces que lhe convinham por questões poéticas, burocráticas ou talvez existenciais. Uma egolatria de nós.

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Written by Babi Arruda

24/03/2011 às 15:19

10 Respostas

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  1. O Alessio disse tudo, Fodástico, você traduziu o que tem um tempo que estou tentando entender.
    Perfeito.

    Sandra Peres

    24/03/2011 at 15:30

    • Hahaha o Alessio disse fodástico para a prosa anterior…Entrega com veracidade. Espero que ele leia Egolatria de nós e goste tanto quanto vc.

      Muito obrigada pela visita e volte sempre ^.^

      Beijos

      Babi Arruda

      24/03/2011 at 15:42

  2. Texto denso hein Baby? Não costuma ser muito a sua linha mas como sempre gostei. Você coloca neles uma visceralidade poética bem interessante. Seus textos são sempre muito verdadeiros.

    Michel

    24/03/2011 at 16:04

    • Eu coloco neles o meu sentir. E nisso eu sempre fui especialista…sentir demais 😉

      Adoro quando vc passa por aqui. Obrigada =*

      Babi Arruda

      24/03/2011 at 16:09

  3. ( Tardo, mas não falho! Olha eu aqui! hahaha)

    Interessante eu ter acabado de ler esse – belo – texto neste momento. Apesar de se tratar de motivações diferentes, experimento sensação bem parecida quanto ao desencanto, fim de utopia e, como consequência, seguindo o caminho mais fácil, que é mais cômodo – algo natural do ser humano?

    Não sei, felizmente há a inquietação e como ressurgimos depois de algumas decepções ou do que pensávamos ser “o fim”, mantenho a esperança. De que o “cansaço de ser” ceda ao “entusiasmo de ser”. 🙂

    bj

    Jaime Guimarães

    24/03/2011 at 23:02

    • Para haver a transformação do cansaço para o entusiasmo é um processo longo kkkkkk

      Mas ele acontece, cedo ou tarde 😉

      Beijos

      Babi Arruda

      25/03/2011 at 10:38

  4. ADOREI o texto … E espero que continue com toda essa criatividade … =D

    Carla Cavalcante

    25/03/2011 at 10:47

    • A criatividade sempre existiu. O sentir sempre esteve em mim, só que agora eu decidi voltar a fazer o que eu gosto. Durante um tempo me importei com opiniões de gente que não viam a minha criação, apenas o própria ego ferido.

      Prosa é vida!

      Beijos

      Babi Arruda

      25/03/2011 at 10:52

  5. A que LINDA … nada como fazer o que gosta ..sem se preocupar com as opiniões alheias .. CONTINUE ASSIM VIU .. 😉

    Carla Cavalcante

    25/03/2011 at 11:10

  6. Oh, Babi…lindo o seu texto!!!! Simplesmente adorei…aquela parte do “Pediu mais uma dose de whisky barato e olhou de novo para a porta de entrada” descreveu exatamente o sentimento de quem um dia teve e ainda hoje espera, secretamente, ela entrar por aquela porta novamente.

    Beijos no teu coração…

    Fernando Lins

    28/03/2011 at 07:40


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