Arquivo para fevereiro 2010
O tempo é inexorável
Volte no tempo e pare por alguns instantes. Agora responda: o que mudou? Sei que você irá dizer um montão de coisas, mas procure se ater somente ao essencial, aquilo que realmente molda uma pessoa e é capaz de definir seus caminhos, sua personalidade.
Pois é, o tempo passou e levou com ele muitas verdades absolutas e várias convicções que hoje não fazem mais sentido. A vida é assim, subliminar, faceira e incerta. Da mesma forma que tudo depende de você, nada foge a ação de terceiros e tudo se torna inexorável. O tempo é inexorável. Mas você não pode ser inexorável. Isto é proibido.
Ontem tudo parecia tão mágico, as coisas giravam dentro da minha órbita programada, mas de repente um novo Big Bang. As minhas afirmativas passaram a ser dispensáveis na nova realidade, como um móvel velho jogado num canto qualquer, sem serventia.
Eu tinha tanta certeza daquilo. Era como uma raiz fincada a fundo, forte e resistente. Acho que me enganei e subestimei a ação do tempo. Não levei em consideração meu inconsciente inconstante, minhas mudanças de roupa, minha troca de pele. Isso faz parte do show da vida. São esses pequenos grandes detalhes que fazem os seres humanos distintos e únicos.
As pessoas mudam e com isso elas passam a ser inexoráveis com você, mesmo sem querer. Isso é um fato inquestionável, irrevogável, passível de protestos e revoluções desarmadas. Mas o melhor mesmo é deixar pra lá essas rusgas com o destino.
Um problema que não tem solução não merece importância nem lágrimas histéricas de piedade e compreensão. Para que se perder tempo com que não há conserto? Já transmutou e o significado é outro, exigindo novos esclarecimentos e condutas. De mais nada adianta lágrimas e um “mimimi” descontrolado, tenha a certeza.
Já é tempo de aceitar a nova realidade e assimilar atitudes diferentes. Simples fatos cotidianos. O que era tornou-se inexorável. Agora é hora de abrir a mente e jogar fora tudo que está caducado, velho e com a validade vencida. Uma faxina interna de conceitos, ideias e pessoas, de julgamentos e sentenças.
Não se apegue a ilusão de permanecer no mesmo lugar, alimentando as mesmas concepções de vida. As transformações são inevitáveis e de nada adianta se manter em uma postura austera e inflexível. Flutue. Libere a imaginação e os sentidos. Não se assuste ao olhar no espelho e ver que mudou. Não há nada de errado nisso. Aceite.
As pessoas precisam aprender a praticar o desapego, inclusive o desapego de si mesmo. Nós somos efêmeros e o que somos hoje não é necessariamente a verdade de amanhã, nem mesmo uma premissa irrefutável. O tempo é inexorável, mas o ser humano tem que estar além desta limitação.
Mundo real x mundo virtual
Outro dia fui questionada sobre os laços que unem as pessoas pelo Twitter e pensei por alguns instantes: putz, será mesmo que estou ficando maluca ou as relações e as sensações do mundo virtual podem ser consideradas reais? Confesso que isso é algo muito complexo e não tenho uma conclusão definida.
Uns afirmam que existe uma diferença clara entre o mundo virtual e o mundo real e que as pessoas só passam a ter alguma relevância quando pertencem ao mundo real. Outras já defendem que relações fortes de amizade ou até mesmo um vínculo amoroso pode ser construído no mundo virtual.
Definir quem está certo nas suas conclusões é muito difícil porque não cabe a mim e nem a ninguém julgar os sentimentos das pessoas. Porém, posso dizer que em minha opinião as relações podem começar no mundo virtual, mas elas devem se concretizar no mundo real.
Eu preciso de toque, cheio, abraços e beijos, algo sólido como segurar nas mãos e ter aquele olho no olho para sentir a alma da pessoa. Por mais que as pessoas possam ser convincentes, sou obrigada a dizer que na internet todo mundo pode ser o que quiser, desde um astro pop ou até um pobre coitado que não tem nada.
As máscaras no mundo virtual são muito mais constantes e difíceis de serem diagnosticadas porque parece que a humanidade está carente de atenção, de carinho, de proximidade e isso faz com que bons de papo se dêem bem em redes sociais. Os mais tímidos e reservados saem ganhando com isso porque conseguem burlar o medo, a vergonha do contato social.
Isso com certeza facilita você lidar com o outro por uma tela de computador, sem precisar olhar no fundo dos olhos, ter aquele famoso tête-à-tête. Assim é mais fácil disfarçar as emoções, fingir os sentimentos, ser politicamente correto. Na esfera virtual a educação é menos rígida e as questões sobre consideração e respeito são muito subjetivas, afinal, é necessário ter tudo isso por uma pessoa que não se conhece pessoalmente?
Eis o “x” da questão. Por que não ter? Conversar diariamente com alguém não é criar um vínculo? Porque tecnicamente você está conhecendo e compartilhando com o outro conhecimentos, informações sobre você e sua vida e isso faz com que elos de amizade sejam criados. Talvez até paixões arrebatadoras.
Se voltarmos ao passado podemos observar que muitos namoros aconteciam através de cartas, sem a convivência física dos enamorados. A forma de comunicação só evoluiu e ficou um tanto biscate já que paquerar na internet virou algo comum, cotidiano, perdeu até o significado romântico. O lema atual é quanto mais melhor, não importando a qualidade.
O que posso dizer é que somos seres únicos, pensamos, sentimos e agimos de formas diferentes. As pessoas não são robôs e sim, possuem sentimentos e estão sujeitas a oscilações de humor e de amor. O mundo virtual aproxima caracteres, concilia afinidades e traz as pessoas para o mundo real, e isso é indiscutível.
O ser real
Nem tudo é o que parece. As pessoas e as situações são muito mais complexas que um simples olhar baseado em achismos e suposições dos próprios conceitos. Os seres humanos são diferentes e o julgamento pode ser um equívoco sem volta. A percepção do real é uma linha tênue e muitas vezes nos precipitamos.
Entramos numa era onde julgar é natural, faz parte do dia-a-dia e nem é mais considerado um pecado assim. É tudo possível e permitido porque o ideal empregado é a velha fábula do ter e não do ser. Diria melhor, o importante é parecer. Sim, porque você não pode ter, mas se fingir que tem está tudo certo.
Não! Isso não está nada certo. Esses conglomerados de valores modernos são baseados na conveniência e no egoísmo, não respeitando os limites do espaço pessoal alheio. O julgamento é uma forma de preconceito velada que maltrata suas vítimas.
Mentiras sinceras não me interessam, nem muito menos verdades absolutas. O que interessa é o ser real do momento, olhando para as pessoas e acontecimentos com um pouco mais de compaixão e compreensão. Viver de uma percepção irreal é se jogar direto no abismo da ilusão.
As ideias que envolvem a realidade serão mais amplas se nós tivermos dispostos a enxergar as coisas claras e infinitas, sem convenções paralelas. Mente coesa e tranqüila traz mais benefícios para aqueles que sabem viver sem a presunção de serem os perfeitos. Porque ainda digo que o que mais existe são os perfeitos idiotas.
Não quero viver em um mundinho supondo suposições. Considero estrelismo barato de pessoas ordinárias e medíocres que passam pela vida julgando o próximo pela ótica do seu umbigo e nem se quer conseguem se olhar no espelho tamanha é a distorção entre o fabricado e a realidade.
E infelizmente afirmo que essas pessoas são a maioria porque a sociedade criou um legado de aparências e sofisticações do superficial, transformando as coisas em sentido conotativo. Quisera eu poder falar com toda força que as relações humanas são denotativas. Seríamos todos muito mais felizes sendo o ser real.
Já dizia o poeta que “o essencial é saber ver, saber ver sem estar e pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê, nem ver quando se pensa”. Uma sentença confusa a priori, mas que demonstra toda a simplicidade de uma alma que sente o real como a única forma de convivência lúcida. O ser real é essencial!



